quinta-feira, 3 de novembro de 2011

THAIS E A CAMISA AUTOGRAFADA DO WASHINGTON

Abriu os olhos e desejou enrolar-se ainda mais naqueles lençóis. O sol entrava num curto espaço entre o batente das janelas e a cortina. Era possível ver que ele brilhava, como os olhos de Thais que, naquele momento, desejava um delicioso café da manhã e um mimo de seu novo namorado. Pensou que seria bom um beijo de "bom dia" na testa e na bandeja, suco, iogurte, granolas, frutas e cereais.

Marcelo estava em frente ao espelho. Tirou a camisa e com a calça de pijamas parecendo uma roupa ninja ameaçou alguns passou de Tai chi. No início, Thais até achou alguma graça. O rapaz, porém, empolgou-se e começou a ver músculos onde os mesmos não existiam. Passou as mãos sobre os cabelos e tentou inflar o peitoral. A pior parte foi fazer simulações, em frente ao espelho, de sua performance na noite anterior. Isso sim, deixou Thais perplexa e indignada:

- Mais o que é isso?

- Isso, o que?

- Essa coisa ridícula.

- Ridícula hoje, né? Ontem à noite você bem que gostou.

Thais sabia dos riscos de pegar qualquer um, em qualquer lugar. Suas amigas também já a haviam alertado – Tai, hoje 90 % dos homens são babacas. Pouco mais de 9 % são legais, mas já estão casados ou comprometidos. Nos sobra então, menos de 1% amiga!! isso é quase nada!!! Cuidado, amiga! E nada de levar homem para casa, hein !

Esse último conselho a menina ouviu. Foi para a casa do rapaz. A questão agora era, como sair de lá:

- Eu estou falando disso aqui, dentro de seu armário. Que porra  é essa, Marcelo?

- É a camisa do Washington, meu amor. Eu já havia lhe falado sobre ela.

- Quem é Washington?

- Washington, meu anjo. Aquele atacante do Fluminense. Aquele, lembra-se? O cara teve um problemão no coração, ficou um tempo parado e depois, deu a volta por cima, foi campeão...lembra-se?

 - Não.

- Washington, amor. Aquele que jogava no Fluminense!

- Porra! Marcelo, tu não é rubro-negro? Que camisa é essa do Fluminense dentro de seu armário?
- Qual o problema?

- Qual o problema? qual o problema?

Thais pegou a camisa e cheirou

- Porra!!! Está fedendo para cacete essa porra! Bem que eu estava sentindo esse cheiro desde ontem.

- Claro! É a camisa do jogo! Ele me deu de recordação. Ele é meu parceiro. Tirou do próprio corpo e me deu .

- E vc acha isso legal, Marcelo. Que porra de  homem você é que guarda a camisa de outro marmanjo no armário sem lavar, Marcelo. Você quer o que? Quer ficar sentindo o cheirinho dele?  E essa porra que você estava fazendo em frente ao espelho, Marcelo? Que coisa ridícula era aquela?  Você é gay, Marcelo? Você é gay? 

Thais sabia que gay Marcelo não era,  mas aquele malabarismo em frente ao armário extinguiu a chance daquela relação ir adiante. Para Thais, Marcelo não era gay, era ridículo e isso era muito pior. Se tem uma coisa que Thais jamais suportou foi homem ridículo.

O clima entre os dois ficou pesado. Marcelo olhava fixamente para o teto, tentando entender o que se passava na cabeça de Thais. A moça vestiu-se rapidamente, pegou a mochila e disse adeus.  No hall de entrada do prédio, Thais parou e refletiu:

- Putz! A camisa do Washington...autografada! perdi. 


Por: Henrique Biscardi

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

THAIS E ADALBERTO

Levantou-se e foi até a geladeira. Ficou parada ali, diante do nada, estática. Pegou uma fruta qualquer e dirigiu-se ao sofá, onde suas roupas estavam espalhadas. Sentou-se com as pernas cruzadas e revirou as unhas de um dos pés. Passou as mãos sobre os cabelos e sentiu-se inquieta. Levantou-se.  

Caminhou de uma ponta a outra da sala, mordendo a maça e os lábios inferiores. Foi até as janelas e as abriu. Sentiu um vento arrepiar-lhe o corpo.  Thais Fechou os olhos e deixou suas mãos lhe abraçarem. Partindo do quadril, sentiu a ponta de seus dedos em cada parte de seu corpo.  Balançou a cabeça de um lado para o outro. Suas mãos alcançaram o bico de seus seios e os contorceu, saltando um grito de alívio e prazer. Distante de qualquer coisa que lhe fizesse sentido, entregou-se ao fogo que aquecia a sua alma, deixando que a chama lhe consumisse até o último suspiro. 

Quando seus olhos se abriram, pode ver, pela fresta da porta do quarto, que Adalberto permanecia alienado de seus desejos. Seu corpo ainda tremia e foi difícil sair daquela posição fetal que tanto lhe agradava. Seu rosto, ainda ruborizado, e os olhos, esbugalhados, buscavam alguma compreensão pelo acontecido. Olhou a lua que lhe sorria, debochada, com se algum mérito tivesse naquilo. Não tinha.

A culpa era de Adalberto – pensou –  Tão bonzinho. Adalberto não existe, porra! Não existe!

Pegou o telefone. No outro lado da linha,  Luiza.

- Vou terminar com ele
- Como assim, está louca? Você acaba de ficar noiva.
- Eu sei , Lú. Mas é foda. O cara é perfeito. Ele não existe, cara.
- Calma, Thais. Calma. Respira, respira. Onde você está?
- Na casa dele, porra!
- E cadê ele?
- Dormindo, Coitado. Nem me viu gozar.
- Como assim?
- Nada, nada. Eu vou embora, vou deixá-lo.
- Calma, Thais, porra! Você vai enlouquecer o cara. Não faz isso.
- Eu preciso.
-Porra!!!  Tá maluca? Você me disse ontem que o amava! Disse que ele era um sonho. Cadê o cara educado, gentil, sincero que tanto você curtia, hein? Ele te ama porra!  o sexo entre vocês não é  maravilhoso? Que porra é essa de terminar agora, Thais?
- Eu sei Lú, mas há algo errado nele. Tem que haver? Homem assim existe? Diz para mim, quantos homens iguais ao Adalberto você conhece? Porra! Há algo de podre no reino da Dinamarca, entende? Alguma coisa está errada, cacete. Ele está escondendo alguma coisa. Ele é bom demais para ser verdade!
- Hum. Sei lá. Olhando por esse lado...Ah! desencana, amiga. Acho que você está é com medo de ser feliz.
- Porra nenhuma. Tem alguma coisa errada. Ele está me enganando, está me escondendo alguma coisa. Vou terminar. Pronto. Vou terminar. Acabou.

A moça aproximou-se do rapaz que, aos poucos, foi despertando. Olhou aqueles olhos grandes e castanhos e não a reconheceu. Estanhou a cara séria, fechada. A testa estava franzina e ele pressentiu que a moça tinha algo sério a lhe dizer. Colocou as mãos delicadamente no rosto de Thais e quis saber se algo havia lhe acontecido:

- Não, Adalberto. Ninguém ligou, eu não saí de casa e nem lembrei-me de nada que tenha acontecido e não quis lhe contar antes  para não estragar a nossa noite. O problema é que você é muito bonzinho, cara.  Eu preciso de um homem que me sacuda, que me engane, que me sacaneie, que me deixe insegura. Você está sempre tão preocupado comigo, sempre tão atencioso... deixa eu me ferrar um pouco na vida também. Eu preciso disso. Você me protege demais e isso me sufoca. Eu hoje me dei prazer e foi maravilhoso. Lembra outro dia que você me pegou me tocando?  Eu esperava que você fosse curtir, sentar ali e me ver me dando prazer e não rolou. Você foi embora e depois ficou cheio de grilos me perguntando se você não me dava prazer suficiente. Claro que dá. Você me dá muita coisa e não apenas prazer. Porém, Adalberto, minha vida, meu prazer , meu tudo não pode ser só você e você não me tem dado espaço para mim! 

Adalberto achou que talvez estivesse dormindo. ficou ali, parado, com cara de dois de paus. Nem quando Thais saiu pela porta, o rapaz se deu por convencido. Fechou os olhos e pensou em voltar a dormir.  Quando suas mãos acharam os lençõis vazios ao seu lado, ele finalmente despertou. Sentou-se à cama, colocou o rosto entre as mãos e se perguntou pela razão daquilo tudo.

Decidiu que a moça era doida e não merecia o seu lamento. Jurou tirar Thais de seu pensamento e achou mesmo que jamais veria Thais outra vez em sua vida. Talvez ele tivesse razão. Talvez. 


Por Henrique Biscardi

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A MÃO PELO CORRIMÃO DE THAIS


Talvez fosse o vento que lhe incomodasse. Talvez. Pegou a garrafa de vinho e desistiu. Pensou em...“onde estaria o abridor?”. Desistiu.  Também não queria guardar a garrafa e a deixou ali, ao lado do CD, abandonado na ponta da estante onde se apoiou. Apoiou-se para chorar, mas vontade já não tinha. Corria a mão pelo corrimão -  mão pelo corrimão - achou graça. Achou graça e chorou.

Foi naquele corrimão recém pintado que rolou o primeiro beijo. Ele queria subir, ela travou. Segurou forte em seu tórax. Alexandre a pegou pela cintura. Mãos na nuca da moça. Na boca, um sorriso para o qual Thais ainda não tinha um antídoto. Esmoreceu em seus braços.

Carregada foi pela escada acima. Sentiu-se repousar em nuvens de algodão enquanto seu corpo se despia. Os olhos cerrados, coração leve. Levitou. Agarrou os lençóis com extrema força. Urrou.

Quando recobrou os sentidos, ele estava ali. Mas Thais leu de outra forma seu sorriso. O rapaz estava feliz. Feliz por fazê-la feliz. Ela lhe fez indagações sobre as quais ele não compreendia. Quis saber sobre os motivos, como se houvesse algo além da paixão que o consumia -  Desejo? Sim, desejo. Mas que mal há nisso? Sou desejo, sou tua pele, Sou todo o teu corpo, me vejo em teu olhar!. Ela não compreendia – Quem é que você pensa enganar? Você não me ama, apenas me deseja. Como assim -  insistia - Eu te amo!  

Aquele olhar simples e direto não lhe convencia. Enrolou-se em lençois-armaduras e entrou asperamente em sua suíte. Saiu vestida e transformada. Passou por ele como se nada fosse. Alexandre ficou pensativo por alguns minutos. Pensou que talvez ela voltasse e Thais voltou. Voltou indignada por qualquer motivo alheio. Disse-lhe que queria arrumar a cama. Gostava da casa em ordem, antes de sair e de saída já estava.

O rapaz se foi. Andou quilômetros pelas calçadas vizinhas, sem qualquer direção. Entrou num bar, sentou-se num banco, colado ao balcão. Um atendente lhe interpelou. Olhou para aquele homem de avental branco e para o ambiente a sua volta. Levantou-se e se foi.

As primeiras semanas foram tristeza, incredulidade e saudade. Pensava naqueles olhos grandes e amendoados. Pensava naquela voz macia, nos braços longos que se alongavam em seu corpo. Na quentura dos lábios dela e no gosto da pele. Pensou em ligar. Pensou em ir lá. Pensou. Passou.

Sim, passou. O tempo passou e ele já não pensava. Não pensava, muito. Volta e meia, seu coração batia descompensado. Sua mente enchia-se de lembranças e lágrimas. Olhava o celular em busca de uma ligação perdida, uma mensagem. Seu coração transbordava carinho, amor e saudade. Sim. Ele ainda chorava por ela.

Suas lágrimas, no entanto, secaram. As lembranças daqueles olhos grandes, amendoados e indiferentes lhe assombravam. Não compreendia como alguém pode que lhe despertar tantos sentimentos bons e ao mesmo tempo lhe causar tanta dor.

Assim era o amor, pensou. O amor não correspondido. Na última quarta-feira, ao olhar a chuva marcar pingos grossos em suas janelas, Alexandre conseguiu enxergar o rosto de Thais.  Há alguns quilômetros de distância, sentada no último degrau da escada, cabeça apoiada ao corrimão, olhos grandes e  amendoados curtiam a segurança que a solidão lhe proporcionava. Passou a  mão pelo corrimão - mão pelo corrimão - e pensou nas mãos de Alexandre, passeando pelos seus quadris.

Por: Henrique Biscardi

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O ADEUS DE MALÚ

Foi difícil a longa caminhada pelo passeio aberto em meio a um jardim florido de primavera. Olhou para a rua, como fazia nos últimos nove meses. Já havia desistido do celular e de olhar a caixa de mensagens de seu Outlook. Parou de se torturar no msn, twitter e facebook.

Caminhou vagarosamente de volta a porta de entrada de sua casa. Seguia uma rotina de trabalho. Acendia cigarros, bebia vinhos e as vezes até pensava em sorrir, em seguir em frente. O difícil era entender o que tinha acontecido. Queria uma explicação. Não precisava ser verdade. Queria apenas que o convencesse, como se ele pudesse realmente ser convencido.

Não podia. Aquela era a maior dor de sua vida. Ele amou Malú mais do que podia, mais do que ela desejava. Ele não compreendia. Ela também não. Apenas, sentia. Longa era a estrada de Malú. Longa e imprevisível.

Quando Bebel chegou, João acreditou mesmo que havia atingido o auge de sua felicidade. Aquilo era verdade. Não imaginava, porém, os planos de Malú. Na verdade, nem ela sabia. Não sabia direito o que queria de João. Voltou porque sentiu sua falta. Voltou por um desejo de tê-lo sempre por perto, sempre ao seu lado. Isso também era verdade.

Talvez Malú tenha esquecido apenas de um detalhe. O que queria João? Não contava que ele podia não querer aquilo. Talvez ele não se importasse. Porém, era possível também que ele não desejasse ser eterno para alguém que não desejava ser eterno para ele. Malú estava feliz apenas por ter uma filha de João, carregando com ela o amor maior que alguém já lhe deu em toda a sua vida.  João estava só.

Não é fácil despedir-se de um personagem. Não é fácil despedir-se de um grande amor. Espero ter sido coerente com meus personagens. Na vida, e na arte, é preciso ter coerência e responsabilidade. Além de muito amor, é claro.


Por Henrique Biscardi

terça-feira, 9 de agosto de 2011

MALÚ E A GRAVIDEZ DE JOÃO.


Pensou em ir de carro. No entanto, sentiu que precisava andar. Caminhou por quatro quarteirões, aquecendo as mãos. Apesar de fria, a noite estava clara. Estrelas e uma lua enorme faziam ele sentir-se em paz. Uma paz que emanava do peito, que lhe fazia sorrir e sonhar. A caminhada aplacava-lhe, também, a ansiedade. João caminhava e pensava coisas sem o menor nexo, sem o menor sentido. João caminhava, despretensioso.  

Em casa, Malú estava em sintonia. Para ela, não havia diferenças entre os suspiros feitos de clara de ovo da panificadora Jóia da Vila ou os croissant de chocolate da Via Viena. Ela não comia doces, não se importava com doces. Importava-se com João e tinha temores sinceros de que ele viesse a enfartar.

Há meses João vivia assim: Quer água, meu amor? Você está bem? O travesseiro está numa altura boa? Foi tudo bem no trabalho? Algum sangramento? Tontura? No terceiro mês, Malú não suportou a pressão e gritou: Porra! Não enche o meu saco, João!!! Eu não estou doente, caralho. Estou grávida, João!!! grávida!!!

Desde então, João era só silêncio. Mas Malú o conhecia. Ela sabia que, mesmo sem dizer uma palavra, ele a estava observando e lhe cercava de todos os cuidados. A menina aprendeu a conviver com isso e para não explodir de novo, mandava ele para lugares cada vez mais distantes. No começo, o rapaz atendia os seus pedidos de carro e voltava mais rápido do que ela desejava. Malú, menina esperta, percebeu a falha em sua tática e passou a lhe mandar várias vezes a rua, em distâncias menores.

Dessa forma, o equilíbrio foi alcançado.  João estava caminhando e já perdera cinco quilos. Enquanto sua esposa ganhou preciosos tempos em que podia fazer algumas estripulias, como dar uma malhada de leve, uma limpada básica na casa ou mesmo preparar o próprio jantar.

Naquela noite de quinta, Malú mandou João para bem longe. O rapaz distraiu-se com as calçadas largas e a fumaça que saia de sua boca ao respirar. Foi mais longe do que costumava. Mas, àquele dia, estava aparentemente calmo, tranquilo. Caminhou vagarosamente, tanto na ida, quanto na volta, cantarolando cantigas de sua juventude.

Quando chegou em casa, já perto das onze, com um largo sorriso no rosto. Trazia em uma das mãos geladas, uma bela torta de amoras frescas que certamente Malú jogaria em sua cabeça, estivesse ela a caminho do hospital – pensou João.

Tudo ficou turvo diante das vistas do pobre rapaz. Um arrepio gelado subiu-lhe pela espinha dorsal. João saiu correndo, sem rumo e sem torta pelo meio da rua. Pensou em chamar por vizinhos, policia, ambulâncias. Abri novamente as portas de sua casa e caminhou até o quarto. Ficou errático ao se deparar com  Malú. A moça estava deitadinha, de lado, na cama.  Saboreava um copo de suco de frutas, gelado, entretendo-se entre um programa de entrevistas que passava na televisão e a revista que tinha em mãos. João procurou Bebel pela casa inteira:

– De novo não, João. Ai, meu Deus. Amor, senta aqui – disse Malú puxando João pela manga direita de seu moletom. Pare de se preocupar. Quando Bebel estiver chegando, eu te aviso. Pare de ficar nesse desespero e não esquece de levar o celular quando sair. Vai. Tome ele aqui. Aproveita e leva o Fred para passear que ele ainda não fez coco hoje.

 Pensou em ir de carro. No entanto, sentiu que precisava andar. Caminhou por quatro quarteirões, aquecendo as mãos...João e seu labrador. 

Por: Henrique Biscardi

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A ENTREGA DE MALÚ

O vento soprou forte naquela tarde de outono em São Paulo. Folhas e galhos retorcidos cobriam parte da calçada por onde passou aquele par de botas, de passos firmes e apressados. Um perfume conhecido invadiu o oitavo andar do velho prédio da rua Castanheira, onde olhos enfadonhos observavam a fina chuva cair, saboreando uma taça de um bom vinho chileno qualquer.

Porém, há muito, os dias não eram tão solitários assim para João. Na primavera passada, o rapaz conheceu Letícia. Olhos fortes e penetrantes, “a ruiva do Belenzinho” havia lhe enfeitiçado – diziam alguns amigos. O certo é que aquele homem, reconhecidamente equilibrado, passou num piscar de olhos a um Sodoma desvairado, segundo comentários que surgiam entre moradores e porteiros, em alusão às tardes quentes de sábado que se repetiam no apto. 803. 

Malú soube por Laura, uma prima confidente,  que era tudo verdade. Difícil era imaginar aquele homem, pijama de flanelas e uma calmaria que lhe aplacava o cio, fazendo as coisas que ela descrevia. Entretanto, o acaso permitiu que Roseli, uma colega de seu trabalho, lhe desse o serviço. Ocorreu que numa tarde João a convidou para subir a seu apartamento, de onde só saiu, extenuada, molhada e febril, depois de provar prazeres que jamais sentiu.   

Naquele sábado, João pressentiu que Malú voltaria e quando a brisa lhe trouxe o cheiro, a porta da rua já estava aberta. A moça desceu do salto. Não houve sequer uma palavra trocada. As malas foram deixadas ao chão. Pés descalços caminharam ao encontro de João. Mãos, por entre braços, avançaram sobre seu peito. O rapaz, fechou os olhos ao sentir o rosto de Malú apoiar-se em suas costas. A moça deixou cair o sobretudo. Depois,  desabotoou a blusa feita de linha e desatou a presilha de seu sutiã. Mamilos rosados enrijeceram-se e se esquivaram de ponta a ponta, para cima e para baixo, naquele corpo já repousava sobre tábuas que rangiam na sala de estar.

Amaram-se loucamente sem trocar olhares. Seus lábios, não. Estes, conversaram longamente, oscilando entre o crivo e o ponderável.  Seus corpos se comunicaram como nunca antes. Suas mentes não se ocuparam das horas que se precipitavam. Houve sussurros e gemidos. Ouviu-se até um toque com o cabo da vassoura de algum vizinho mal amado. João buscava Malú de todos os jeitos, por todos os lados.  E ela, finalmente, se entregou.

Após a tempestade e no descansar do calor de seus corpos, houve tempo para se compartilhar a taça de vinho que  ela resolveu também degustar. João pensou em perguntar por seus longos cabelos, mas logo a moça recuperou o fôlego e decidiu testar, uma vez mais, João.  

A garoa passou e os primeiros raios de sol iluminaram corpos suados e extenuados que se espalhavam, parte no chão, outras pelo sofá. Um lençol branco cobria metade das coxas de Malú, sobre a qual repousava a cabeça de João. Seus lábios ainda arriscavam algum gracejo. O libido, porém, sucumbiu ao cansaço e eles desfaleceram, juntos.

Durante semanas viveram assim. Muito amor , poucas palavras. Até que, naquela segunda-feira, Malú sentiu-se diferente e chamou por João:

– Eu quero.

João segurou firme em suas mãos, desceu com a cabeça até seu ventre e após o beijar sua barriga, a respondeu:

– Eu também.

Por: Henrique Biscardi

quinta-feira, 14 de julho de 2011

OS CAMINHOS DE MALÚ

Uma vez mais, deixou sua cabeça repousar nos pêlos do peito de seu amado. Sentiu aquelas mãos fortes e macias percorrerem seus longos cabelos negros. Dedos, rapidamente, chegaram à sua nuca, puxando-a, com força, pelos cabelos. Sua cabeça pendeu, graciosamente, para trás. A moça arrefeceu o brilho dos olhos, fazendo-os desaparecer por entre suas pálpebras, cerradas de prazer. Segurou firme aquele braço forte e musculoso, chamando-o para ao entorno de seu corpo. Mordeu levemente seus lábios molhados.

À beira da cama, João ficou sem saber o que fazer. Não esperava encontrar sua mulher daquele jeito. Seu corpo formava com o colchão, um arco, apoiado numa ponta pela nuca e noutra pelos calcanhares. Rosto ruborizado, com  as narinas totalmente abertas. Os seios estavam duros e pontiagudos. Os braços se esticavam para trás. Cabeça esfregando-se levemente no antebraço, como gata no cio. O dorso ergueu-se ao limite. Seus músculos contraíram-se ao limite. De sua boca, pode-se ouvir um leve gemido, enquanto seu corpo, exausto, desfalecia na cama. 

Ao recobrar os sentidos, desfigurada, Malú percebeu a presença de João e demorou-se a abrir os olhos. Sentia-se fraca para falar sobre o que devia ser dito. Tinha consciência de sua loucura. Bem pior, no entanto, seria não reconhecê-la. Sabia que não havia amor maior do que o daquele homem. Precisava, porém, conhecer os seus próprios limites. É preciso coragem para se abrir mão de um grande amor, de alguém que lhe faça tão bem. Malú compreendia bem a sua angústia, a sua dor.

O rapaz tentou amenizar a situação. Porém, relutou em abraçar o corpo suado de sua amada. Temia reconhecer o cheiro que exalava de seu corpo, ainda em brasa. Buscou refúgio num resto de jornal , caído ao lado de uma cadeira. Cruzou as pernas e levou a mão ao queixo. A moça reconheceu aquela expressão e pensou em chamá-lo para junto de si. Quis tanto que ele ficasse bem que seus lábios emudeceram. A noite caiu, João foi embora e Malú voltou a sonhar.

Numa manhã ensolarada de Paris, João acordou e encontrou Malú com as malas prontas. Ela foi em sua direção e lhe deu um grande abraço:

– Obrigado por tudo. Agora, já sei por onde ir. Entenderei se não esperar por mim. Mas, um dia, eu volto. 

João abaixou a cabeça de Malú e  deu-lhe um beijo na testa:

– Feche a porta ao sair, por favor – disse-lhe enquanto se dirigia ao banheiro, arrastando o seu velho roupão.

Malú então surpreendeu-se com João e sorriu. Pelas ruas de Paris, até o aeroporto, sentiu que podia partir para a vida, sem culpas. Fechou os olhos, respirou fundo e deixou-se contaminar pela deliciosa sensação de liberdade. Verdadeiramente, no lugar mais profundo de sua alma, sabia que não se tratava de libertar-se de João. Não era ele quem a aprisionava. Desejava libertar-se de suas amarras interiores, de seus medos, traumas, acalmar-se de suas inquietações. Fez planos e desejou, de verdade, dar a João a Malú que ele merecia, a mulher que ela desejava ser.  Um caminho que ela precisava percorrer, sozinha.

 Por Henrique Biscardi