quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Malú e a Prosa Poética

Custei a admitir que meus olhos também brilharam no brilho dos olhos de João. E não foi fácil para uma mulher como eu, livre, independente, com minhas calças rasgadas,  blusa jogada ao corpo, peitos a solta, cabelos cacheados e esvoaçantes, o símbolo da liberdade, diversidade, espontaneidade, qualquer “dade” dessas que rime com rebeldia e desconforto.  Não foi fácil reconhecer que algo me atraia naquele “engomadinho” que descia do ônibus, pontualmente, diariamente, invariavelmente com aquele sorriso que, francamente, não merecia nem um registro de minha mente, mas que meus olhos fitavam, assim, inconscientemente, reluzentes, o brilho dos olhos de João. E o pior! Eu via neles, capturado, o brilho de meus olhos, que brilhavam, desavergonhadamente, no brilho de seus olhos. 

A prosa poética foi proposital. Quem sabe, eu vendo escrito, quem sabe, publicado, não fique ainda mais ridículo? Meus olhos brilhando no brilho dos olhos de João. Isso é Patético! Eu não sei por que raios de motivação eu me via assim naqueles dias. O brilho de meus olhos no brilho dos olhos de João. Odeio prosa poética!

Foi quando eu me peguei de prosa com o “engomadinho”. Ele dizia coisas que meus ouvidos ignoravam. Eu, abduzida pelo brilho de meus olhos no brilho dos olhos de João, lutava contra os meus desejos. Cansada, cerrei meus olhos. Como quem escapa do brilho, como quem foge de si. Senti-me como as forças alemães, exauridas no inverno russo. Deixei-me apanhar, apreender, subjugar. Só por uns instantes. Quando ele tentou dizer algo, imobilizei-o. Você não queria tirar-me de minha negação – gritei à ele. Então, toma-me. 

Pobre João. Não imaginava o perigo que corria. Talvez o brilho de seus olhos não tivesse visto o fogo que   havia por trás do brilho de meus olhos. Senti pena dele. Acordava cedo, tomava banho, escovava os dentes, fazia e tomava o café, depois o ônibus. Atendia, simpaticamente, moços, moças e velhinhas. Voltava para casa, sempre engomadinho, ignorante do perigo que o cercava. Talvez, se soubesse, nunca teria se atrevido a olhar o meu decote. Nunca teria se atrevido a olhar, por curiosidade, quem era a dona daqueles peitos que o deixavam com água na boca.

João, porém, olhou. E eu , que queria apenas provocar o engomadinho patético do prédio da frente, também não devia aceitado aquele olhar. Se ele foi ignorante, confesso que fui muito, muito arrogante. Jamais pensei que uma mulher cabeça feita, depois de tantas arruaças, festas, bebedeiras e trepadas homéricas, uma mulher, cabeça feita (de novo?) letrada, escaldada, velha de guerra, do alto de SUA sabedoria conquistada a custo de tantos livros lidos, de tanta poesia escrita e de tanta filosofia de botequim proliferada, e alternada com tapas em guimbas de cigarros de maconha, como poderia imaginar, que uma mulher “dessas” poderia se deparar com o brilho de seus olhos brilhando no brilho dos olhos de um “engomadinho”?

Pobre João. Na manhã seguinte, derrotado, era o fel de stalingrado. Suas mãos, entristecidas, recolhiam os restos da batalha. O que seria daquele homem com camisas e calças “engomadinhas” jogado aos farrapos? Não pensei nisso quando desci as escadas, ainda pouco iluminadas, naquela manhã de sábado. Caminhei pela rua seminua, sorvendo o ar. João não foi o primeiro. Foi o único! Foi o único em quem enxerguei o brilho de meus olhos nos brilhos de seus olhos. E não há prosa poética que me faça esquecer disso.

Por: Henrique Biscardi

sexta-feira, 11 de maio de 2012

MALÚ E O CIGARRO DE BALI



Tentou disfarçar o seu descontentamento ao abrir, gentilmente, a porta para sua esposa e lhe estender a mão com um jocoso sorriso. A idéia do programa foi dele. Um cineminha, um chop...Malú topou na hora e o casal saiu feliz de casa, trocando carícias e elogios sobre seus trajes. No meio do caminho, João passou à moça o jornal e lhe sugeriu que escolhesse o filme. Foi aí que a coisa desandou:

– Uhu! Está escolhido – disse entusiasmada
– E eu posso saber qual é? – indagou o marido
– “Ele não está tão a fim de você” – Tenho certeza de que irá gostar. É com a aquela loira de bunda exagerada...e branca – disse Malú em tom debochado – Adoro comédias românticas.
– Romântica? Com esse título?
– Vai começar ? Você não disse para eu escolher o filme? Eu estou até lhe dando uma colher de chá!  Vou deixar você ficar lá babando na Jennifer Aniston e na Scarlett Johansson. Vamos fazer assim? Você fica olhando para essas duas, enquanto eu mato as saudades do meu Ben Aflleck.

Foi nesse momento que o silêncio se instalou, abalado apenas por mais observação entusiasmada de Malù.

– Caraca!. Bradley Cooper A-MO. Ele é tudo de bom. Lembra dele? Ele é o ator principal daquele besteirol que você adora, “Se beber, não case”.
– Eu sei quem é, mas ele não é o ator principal.
– Claro que é.
– Não é. O ator principal, logicamente, é o cara que não deveria beber porque ele estava para se casar.
– Ah! ta bom. Ele não é o principal. Diga-me, então, qual o nome do ator que faz o papel principal?
– Em qual filme?
– Não disfarça não. Você entendeu a minha pergunta. Qual o nome do ator que você disse aí que é o principal no filme “Se beber, não case” ?
– Ah! eu não lembro agora. Você sabe que eu não guardo nome de ator.

Malú colocou um leve e sarcástico sorriso em seus lábios. Preferiu não estender a discussão, porém, pensou: Não guarda nome de ator, mas sabe direitinho quem é Bradley Cooper.

Malú entrou na área dos cinemas e parou para diante do Banner promocional do filme, esperando encontrar mais informações. João, preferiu a cafeteria e disfarçou seu descontentamento lendo algumas notícias no jornal. Minutos depois, os dois se juntaram e entraram na sala de projeção.

Após meia hora, Malú começou a sentir-se entediada com a história. Como não queria “dar o braço a torcer”, esforçava-se para demonstrar algum interesse, comentando uma cena ou outra. João, aquela altura, já não se fazia de rogado e se permitia a alguns curtos cochilos. Foi quando, durante uma cena, Malú resolveu catucar João e o puxou pelo braço:

– Olha, comigo não tem essa história, não! Nem se fosse o Bradley Cooper, eu perdoaria.
– Do que você está falando?
– Olha pra lá, presta atenção no filme! Que horror! Chamar a mulher para ver um filme e dormir é pior do que não chamar, sabia? Você tem que me fazer companhia. Assistir o filme comigo, poxa.
– Desculpe, meu amor. É que esse filme, realmente...mas diga para mim, o que está rolando?
– A mulher do personagem do Bradley Cooper. O cara falou para ela que tinha uma amante e ela está pensando em perdoá-la.
– Ah! amor. Isso é filme. E, sei lá. Cada um é cada um e cada situação é uma situação.

O fato é que João aproveitou aquele conflito para prestar alguma atenção no filme. Talvez Fosse melhor se tivesse permanecido entretido em seus cochilos. A cena seguinte lhe causou um mal estar tão forte que não pode conter-se:

– Não entendi uma coisa, Malú. Ela não tinha perdoado ele. Por que está jogando as roupas dele escada abaixo agora?
– É uma simbologia, uma ideologia idiota do filme
– Simbologia? Ideologia? Você pode me explicar melhor?   
– Ah! não enche o saco, João. Você dorme praticamente o filme inteiro e agora fica querendo que eu te explique tudo.
– Custa você me explicar só isso?
– Saco! Presta atenção. Ele havia prometido a ela parar de fumar e ela achou embalagem de cigarros no bolso dele. Então, foi a gota d´agua. Ele é reincidente. Além de traí-la com outra mulher, ainda mente para ela em outros assuntos, entendeu?
– Entendi. Igual aquele maço de cigarros de bali que encontrei uma vez na sua bolsa. Aquele que você disse que era do seu chefe.
– O que tem isso a ver, João. De novo essa história?  Não! pelo amor de Deus. Já te falei que fui almoçar com o meu chefe , o tio Dinho, e na saída ele esqueceu os cigarros em cima da mesa. Eu guardei e escondi para lhe fazer uma brincadeira quando voltássemos ao escritório.  Só que lá, acabou que ele teve que entrar às pressas numa reunião e os cigarros ficaram na minha bolsa. Você sabe que não tem nada a ver. Ele é meu tio, irmão da minha mãe! Nós já conversamos sobre isso.
– Sim. Eu sei. Jamais pensaria uma coisa dessas. O problema é que você tem uma “amigo” que, coincidentemente, também fuma esses mesmos cigarros! 
– O Arnaldo é Gay, João. Quantas vezes eu já te falei isso.
– Isso é o que você diz, né? Eu nunca vi ele com outro homem e ele não tem pinta de viado, não.
– Ah! João. bom. Eu dei para o Arnaldo, pronto! Está bom assim? O que você vai fazer? vai se separar de mim? – disse rindo ironicamente – Deixa de paranóia, João. Você já viu meu tio fumando esses cigarros várias vezes, porra!  Agora, se você vai ficar imaginando coisas com todos os meus amigos que fumam cigarros de Bali, eu não posso fazer nada.

Não ouve mais uma palavra sobre o assunto naquela noite. No dia seguinte, Malú encontrou suas roupas jogadas ao chão, no pé da escada. Em cima das roupas, duas bolsas. No fundo de uma, um maço de cigarros de filtro branco, amassado junto a um recibo de embarque de avião. No fundo de outra bolsa, outro maço, nas mesmas condições, de outra marca. 

Malú recolheu suas roupas, colocou-as no porta-malas de seu carro, pegou seu telefone celular e ligou para João:

- Bom dia, meu amor. Só queria te pedir um favor. Liga para a vadia da sua irmã e diz para ela que, da próxima vez que ela pedir minhas bolsas emprestadas para passear em Milão, que ela as devolva limpas e sem lixo em seu interior, está bem?  Explica para ela, desenha se ficar difícil dela entender, que, como você é paranóico, isso pode nos trazer sérios problemas conjugais. Eu podia sair daqui agora e ir direto para a casa do Arnaldo. Podia  dar para ele o dia inteiro, meu amor. Mas ele é gay! Entendeu isso, meu amor? GAY!!! E você, Não é corno. Ainda não. Mas é um bom filho da puta. Um feliz final de semana para você, querido. 

 Por:Henrique Biscardi

quarta-feira, 14 de março de 2012

A VIGA DE FERRO

Passava os dias ali, agachada, postada ao chão. Olhava fixamente para a viga de ferro espreitada na divisa do muro. Entre elas, havia João. Pés descalços, peito aberto, mão pesada. A areia, apertada, escorria pelas mãos, enquanto aquele homem negro lhe jogava de encontro ao fogão e lhe violentava. Não havia gritos ou soluços. Crianças dormiam, o vestido ajeitava e a vida seguia.

Passava os dias ali, agachada, postada ao chão. Olhava fixamente para a viga de ferro espreitada na divisa do muro. Entre elas, havia João. Pés descalços, peito aberto, mão pesada. A areia, apertada, escorria pelas mãos, enquanto aquele homem negro lhe jogava de encontro ao fogão e lhe violentava. Não havia gritos ou soluços. Crianças dormiam, o vestido ajeitava e a vida seguia.

Passava os dias ali, agachada, postada ao chão...

Malú queria trabalhar. Ele, alguém que cuidasse da roupa, da comida e da casa. A moça venceu e batalhou por algum tempo numa tecelagem. Mas o destino lhe deu Bebel. E depois Matheus, Victor, Melissa. Quando a quinta criança nasceu, o lar  já não existia. Malú já não existia, principalmente para Renato.

O rapaz foi paulatinamente substituindo as chaves de boca e o macacão surrado de graxa pelo taco de sinuca. Da cerveja para a cachaça e dessa para o inferno. Os dias passavam, a noite chegava e ele seguia conhecendo um barraco novo a cada dia. Isso até o meio do mês, enquanto um tostão lhe restava. Depois, só bebida e um corpo macio para bater e se encostar. 

Antes de sua mulher, seu chefe se encheu. João recebeu apenas um cheque nominal e lhe pediram as chaves da garagem de volta. No boteco, levou uma surra e beijou o asfalto. Queriam a sua morte, mas seu credor gostou da idéia e aceitou Malú. Arrastado por toda a viela foi jogado à porta de casa e chamou por sua mulher. Nua, de bruços no sofá, Malú não pode compreender aquilo e enquanto seu algoz se vestia. Ela decidiu que nada mais existia.  

No término do primeiro quadrante, do terceiro ano, disseram que a moça enlouqueceu. João sonhou que estava na “hidro” com uma de suas vagabundas. Só teve tempo de arregalar os olhos, antes que seu cérebro derretesse. Ele gritou. Gritou bastante. Encharcado em água e sangue ferventes. Chegou sem vida ao hospital. E Malú apenas sorriu.

Tiraram-lhe os filhos. E ela sorriu. Passaram lhe as algemas, depois as correntes. Ela sorriu. No tribunal, também sorriu. Diante dos polícias, do delegado, do juiz e do júri, apenas sorriu.  quando voltou a ver os filhos, chorou. Abraçados aos rebentos, deu um beijo em cada e despediu-se: “Vocês estão livres”.

Aquelas foram suas últimas palavras, seu último choro, seu último sorriso. Malú morreu. Envolta num velho trapo de pano, ela morreu. Não contava os dias, nem olhava as horas. Comia, bebia, dormia, acordava e apenas a ferrugem daquela viga de ferro na fresta do muro lhe acompanhava.

Os dias de chuva eram bem piores. Presos na cela ou amotinados  no pátio, todos assistiam aquele farrapo humano, descendo até o chão, respirando a terra, procurando, talvez o horizonte ou o mar, sem no entanto, desprender seu olhar da viga de ferro. Resistiu a uma, duas, três doenças, com alguma gravidade, disseram. Contudo seu corpo, que resistira a tanta coisa, não concordava com a idéia de morte e a sorte lhe trouxe Felipe. A compaixão transformou-se em amor e Malú respirou.

O jovem médico conseguiu a remoção da moça para uma clínica particular: terapia, medicamentos e respeito. A moça já não enxergava mais a viga, embora, às vezes, ainda a procurasse. Felipe encontrou os filhos. Um a um. Reuniu a todos em uma grande casa na cidade de Pendotiba, onde meses depois puderam receber de volta a mãe.

Custou cerca de 5 anos para que Malú  pudesse entrar definitivamente na vida de Felipe. Foram necessários  recursos, atenuantes e pareceres médicos até que a condicional lhe fosse ofertada. Pela primeira vez, a moça teve o que sempre sonhou quando se apaixonou por João.

O médico mostrou-se reticente por mais um ano e ao final do verão de 1987, resolveram viajar. Passaram 20 dias longe de tudo e de todos. Felipe voltou convencido de que a mulher estava totalmente recuperada. Numa noite de verão, exausto pelo trabalho, Felipe beijou sua mulher. Em seguida, entrou no chuveiro e tomou um banho. Colocou champagne no gelo e perfumes no pieto, como Malú gostava. O médico era delicado em cada toque. A moça Malú gemia. Seu corpo contorcia-se de prazer. Por um instante, seu olhar apaixonado perdeu-se ao caminhar de encontro ao de seu amante. No canto do teto havia uma viga de ferro, enquanto a chaleira chiava à beira do fogão.


Por; Henrique Bicardi

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A VOLTA DE MALÚ

Um frio cortante lhe impedia de abrir os olhos. As lentes dos óculos, embaçadas pelas lágrimas que pareciam intermitentes, despojaram-se, aliviadas, sobre seus longos cabelos ruivos. Malú tentou respirar fundo, mas o ar rarefeito lhe deu alguma tontura e a menina jogou-se ao longo da montanha.

Fincava a cana no gelo com a intensidade de outras Eras. Sentiu-se pulsar. A idéia de jogar-se, a entrega, aquela sensação de liberdade lhe devolvia o sentido da vida, num momento tão impar, em que qualquer descuido poderia significar a morte. A moça pensou nisso tudo durante a descida, por cada árvore que parecia vir em sua direção. 

Tentou, sem sucesso, esparramar-se na neve por três vezes. Queria, mas não queria. Era uma vontade inexplicável de sentir cada osso de seu corpo se partindo ao tempo em que o medo da morte lhe devolvia o equilíbrio. Quase deu-se por vencida.

Ao longe, avistou um rapaz que descia suavemente a montanha, muito lentamente, quase parando. Triste, solitário, procurando, talvez, por ela – pensou Malú. Precipitou-se ao seu encontro. O choque arremessou o rapaz a alguns metros de distancia.  


Sem tempo a perder, a moça, então, subiu em suas costelas, doloridas pelo tombo. Voraz, arrancou dele, os óculos, a mascara de algodão que protegia seu  rosto e lhe torpedeou com um molhado e demorado beijo. A moça lhe prendia os braços e sem poder respirar, o rapaz encontrava-se quase desfalecido.  Algumas pessoas, porém, presenciaram o acidente e vieram salvar o rapaz. A muito custo, puxaram Malú para um outro ponto da montanha, enquanto alguns paramédicos prestavam os primeiros socorros ao moço. 

Houve tempo para que Malú recuperasse o fôlego. A menina aguardou colocarem o rapaz na maca e com os lábios sedentos voltou a atacá-lo. Contida novamente, só então percebeu, ao distanciar-se: Aquele não era João.

 Malú pensou na ironia de toda aquela maciez branca que lhe envolvia o corpo e no céu azul que, a sua frente, lhe fazia sentir as vistas. Foi levada ao seu quarto e por lá permaneceu o resto do dia, entre um gole de vinho e várias lembranças. Na manhã seguinte pegou o primeiro vôo com destino a São Paulo.

Encontrou a cidade barulhenta e nublada, como de sempre. Uma chuva fina lhe trouxe um leve sorriso. O porteiro não lhe estranhou e ofereceu-se para carregar sua mala até o apartamento 803. O moça entrou, despiu-se e afundou no colchão macio.

Por volta das 19 horas, João entrou em seu apartamento e sorriu. Foi até o banheiro e barbeou-se. Tomou um longo banho. Enxugou-se, caminhou até sua cama e encaixou seu corpo no de Malú. A moça sentiu sua presença e virou a cabeça com um olhar interrogativo. O rapaz colocou as mãos em seus cabelos e os acariciou. Malú ajeitou mais ainda o seu corpo no de João. A moça estava cansada e desfaleceu, amparada pelas mãos mágicas de João que já naquele momento lhe acariciava os seios.

No dia seguinte João deu uma última olhada para o seu apartamento. Sabia que, com Malú de volta, a noite, ao retornar do trabalho, tudo estaria diferente...como sempre esteve.

Por ; Henrique Biscardi

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

THAIS E O VETUSTO

Atravessou o mar esperando encontrar algum refúgio, algo que lhe encantasse. Porém, logo percebeu que a fuga não havia sido uma boa escolha. Procurou e não encontrou razão para estar ali. Em seus olhos, sua alma em frangalhos. Pelo horizonte escorria, água, água e água. Estava difícil enxergar a terra. Ela perecia, cada vez mais, distante...menos firme. 

Quanto mais fustigava seus desejos, crescente era a sua febre. Talvez – pensou - não fosse uma lebre indefesa, presa num covil, a espera de seu algoz.  Talvez nem fosse grande a sua espera. Talvez. A incerteza, porém também a consumia. Mais do que a espera.

Sobre a espera, ela lembrou: durou uma semana inteira!  Telefonou, mandou e-mail, passou mensagem. - Estou ocupado, depois te ligo – Aquilo não era resposta! – Indignou-se. Ela queria mais. Queria entrega. Desejava que ele a desejasse tanto quanto ela o desejava. Seu cheiro, seu corpo, seu querer estar junto.

Foi quando algumas palavras laminaram o seu peito. Ele dizia querer estar junto. Dizia que pensava nela o dia inteiro e aquilo era tão especial, algo tão inédito em sua vida. Thais sorriu com desdenho. Achou até charme no jeito com que ele dizia aquelas mentiras doce.  Entretanto, sem razão, em um dia qualquer, ela acreditou.

Aceitou seus gracejos, confiou em seu olhar. Atravessou metade da cidade num engarrafamento para estar com ele um par de horas. Ficaram a noite inteira. Conversando e sorrindo. Apesar do desejo, não se enroscaram em camas ou lençóis. Amaram-se. Sim, amaram-se. Amaram-se na cumplicidade de suas histórias, de suas dores, em suas memórias.  Seus corpos e bocas desataram-se por vários momentos, irrompendo sobre um momento ou outro de desatino, de tristeza, de descompasso. Despediram-se algumas vezes, mas a cada distanciamento, uma outra força os reaproximava.  E o dia, amanheceu. A semana passou. Rogério, sumiu.


Thais pensou que o silêncio jamais poderia dizer mais do que mil palavras e isso a consumia. A menina, então, já não saía. A música era sua única companhia e fonte de energia. Percorreu desertos que não conhecia em sua alma, buscou abrigo onde não existia, desbravou mares cujas correntes lhe jogaram de um lado ao outro de sua solidão.

Atravessou o mar esperando encontrar algum refúgio, algo que lhe encantasse. Depois de duas semanas, voltou ao Porto. Pegou o celular e ligou?

- Thais! Por onde andou, meu amor?  Tentei deixar mensagem no seu celular, mas não consegui.

- Rogério, só liguei para dizer que eu te perdôo. Eu te perdôo, Rogério.

Thais interrompeu a ligação e jogou o celular no mar. Aquilo, para ela, havia ficado muito vetusto. 

Por: Henrique Biscardi

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

INTERVALO

Eu não quero ter essa conversa tola.
Você não percebe?
Esse controle remoto que você chama de poder.
É....sei lá...uma defesa minha.
Você sabe...homem é mais fechado, não gostamos mesmo muito de falar, principalmente de nossos sentimentos.
O que eu posso fazer? Nós somos assim.
Somos mais fechados. É nossa natureza!
Fazer o quê?

Hã?
Mas é claro que eu gosto de você, amor.
Claro que gosto!
Olha, deixa eu te contar uma coisa.  
Sabia que nem de futebol eu gosto?
Não gosto, não. É verdade.
Eu vejo porque não há mais nada de interessante para se ver na TV, estou a toa, sem fazer nada. Mas eu não deixo de fazer nada para ver futebol. É ruim, hein. Se eu tiver que sair, eu saio. Se tiver que fazer outra coisa, eu faço. 
O que por exemplo?
Sei lá, Thais. Cada idéia. Agora, assim, na lata, eu não me lembro de nada, mas é lógico que eu já deixei de ver o jogo para fazer alguma parada. Está louca!

Quer ver só? Responda-me uma coisa...Que dia da semana eu jogo futebol com os amigos,hein!!!
Hein! Hein!!!
Nenhum,Viu? Nenhum. Se eu ligasse tanto assim para futebol, era natural que eu tivesse alguma pelada durante a semana para jogar com um grupo de amigos. Mas, eu não tenho. Saio do trabalho e venho para casa para ficar aqui, com você. 

E outra coisa.Você diz que eu não quero conversar, mas isso também não é verdade.
Você é que só quer conversar na hora do jogo
Podia ser na novela, mas não!!!
Tem que ser na hora do jogo
Podia ser na hora do filme, mas não!!!
Tem que ser na hora do jogo
Nem durante o programa da Hebe, você quer conversar
Não, não. Só na hora do jogo.

Hei , hei , espera aí,
Pra que essa mala?
Como assim, Thais?
Espera, olha...está passando futebol e  Eu estou aqui...com você. Viu? Senta aqui, vamos conversar.
Não? Você quer ir?
Mas, por que?
Saco cheio, saco cheio, Isso lá é jeito de falar com o seu marido,Thais?
Futuro ex?
Como assim. Peraí , meu amor. Não faz assim, vai
Venha cá, venha...

Está bem, está bem, já te soltei. Quer ir, vai. Mas, vai para onde?
Não me interessa? Claro que me interessa. Eu sou seu marido.
Que negócio é esse?  Para com isso
O seu lar é aqui. Pára com isso, vai . Vem cá, me dê um abraço aqui, vai
Isso!!! Eu te amo, sabia?

Não, não chora
Venha cá,
Isso...me abraça.
O que foi isso, hein!!!
Você sabe que eu te amo...
Amo sim...verdade!!!

Não Thais! Calma, calma
Senta aqui, vamos conversar
Calma, calma, eu não esotu te enrolando, a gente só está conversando!
Você não queria conversar?
Faz o seguinte, então, ó
Fica essa noite na casa da sua mãe
Converse com ela, pensa bem, se acalme
Amanhã, a gente senta e conversa
Que tal? O que você acha?
Gostou da idéia, né?
Se eu te levo?
Claro que eu te levo...
Senta aqui, respira, se acalma
Deixa só dar o intervalo aqui,  que eu já te levo.




Por: Henrique Biscardi

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

THAIS E A CAMISA AUTOGRAFADA DO WASHINGTON

Abriu os olhos e desejou enrolar-se ainda mais naqueles lençóis. O sol entrava num curto espaço entre o batente das janelas e a cortina. Era possível ver que ele brilhava, como os olhos de Thais que, naquele momento, desejava um delicioso café da manhã e um mimo de seu novo namorado. Pensou que seria bom um beijo de "bom dia" na testa e na bandeja, suco, iogurte, granolas, frutas e cereais.

Marcelo estava em frente ao espelho. Tirou a camisa e com a calça de pijamas parecendo uma roupa ninja ameaçou alguns passou de Tai chi. No início, Thais até achou alguma graça. O rapaz, porém, empolgou-se e começou a ver músculos onde os mesmos não existiam. Passou as mãos sobre os cabelos e tentou inflar o peitoral. A pior parte foi fazer simulações, em frente ao espelho, de sua performance na noite anterior. Isso sim, deixou Thais perplexa e indignada:

- Mais o que é isso?

- Isso, o que?

- Essa coisa ridícula.

- Ridícula hoje, né? Ontem à noite você bem que gostou.

Thais sabia dos riscos de pegar qualquer um, em qualquer lugar. Suas amigas também já a haviam alertado – Tai, hoje 90 % dos homens são babacas. Pouco mais de 9 % são legais, mas já estão casados ou comprometidos. Nos sobra então, menos de 1% amiga!! isso é quase nada!!! Cuidado, amiga! E nada de levar homem para casa, hein !

Esse último conselho a menina ouviu. Foi para a casa do rapaz. A questão agora era, como sair de lá:

- Eu estou falando disso aqui, dentro de seu armário. Que porra  é essa, Marcelo?

- É a camisa do Washington, meu amor. Eu já havia lhe falado sobre ela.

- Quem é Washington?

- Washington, meu anjo. Aquele atacante do Fluminense. Aquele, lembra-se? O cara teve um problemão no coração, ficou um tempo parado e depois, deu a volta por cima, foi campeão...lembra-se?

 - Não.

- Washington, amor. Aquele que jogava no Fluminense!

- Porra! Marcelo, tu não é rubro-negro? Que camisa é essa do Fluminense dentro de seu armário?
- Qual o problema?

- Qual o problema? qual o problema?

Thais pegou a camisa e cheirou

- Porra!!! Está fedendo para cacete essa porra! Bem que eu estava sentindo esse cheiro desde ontem.

- Claro! É a camisa do jogo! Ele me deu de recordação. Ele é meu parceiro. Tirou do próprio corpo e me deu .

- E vc acha isso legal, Marcelo. Que porra de  homem você é que guarda a camisa de outro marmanjo no armário sem lavar, Marcelo. Você quer o que? Quer ficar sentindo o cheirinho dele?  E essa porra que você estava fazendo em frente ao espelho, Marcelo? Que coisa ridícula era aquela?  Você é gay, Marcelo? Você é gay? 

Thais sabia que gay Marcelo não era,  mas aquele malabarismo em frente ao armário extinguiu a chance daquela relação ir adiante. Para Thais, Marcelo não era gay, era ridículo e isso era muito pior. Se tem uma coisa que Thais jamais suportou foi homem ridículo.

O clima entre os dois ficou pesado. Marcelo olhava fixamente para o teto, tentando entender o que se passava na cabeça de Thais. A moça vestiu-se rapidamente, pegou a mochila e disse adeus.  No hall de entrada do prédio, Thais parou e refletiu:

- Putz! A camisa do Washington...autografada! perdi. 


Por: Henrique Biscardi