quarta-feira, 14 de março de 2012

A VIGA DE FERRO

Passava os dias ali, agachada, postada ao chão. Olhava fixamente para a viga de ferro espreitada na divisa do muro. Entre elas, havia João. Pés descalços, peito aberto, mão pesada. A areia, apertada, escorria pelas mãos, enquanto aquele homem negro lhe jogava de encontro ao fogão e lhe violentava. Não havia gritos ou soluços. Crianças dormiam, o vestido ajeitava e a vida seguia.

Passava os dias ali, agachada, postada ao chão. Olhava fixamente para a viga de ferro espreitada na divisa do muro. Entre elas, havia João. Pés descalços, peito aberto, mão pesada. A areia, apertada, escorria pelas mãos, enquanto aquele homem negro lhe jogava de encontro ao fogão e lhe violentava. Não havia gritos ou soluços. Crianças dormiam, o vestido ajeitava e a vida seguia.

Passava os dias ali, agachada, postada ao chão...

Malú queria trabalhar. Ele, alguém que cuidasse da roupa, da comida e da casa. A moça venceu e batalhou por algum tempo numa tecelagem. Mas o destino lhe deu Bebel. E depois Matheus, Victor, Melissa. Quando a quinta criança nasceu, o lar  já não existia. Malú já não existia, principalmente para Renato.

O rapaz foi paulatinamente substituindo as chaves de boca e o macacão surrado de graxa pelo taco de sinuca. Da cerveja para a cachaça e dessa para o inferno. Os dias passavam, a noite chegava e ele seguia conhecendo um barraco novo a cada dia. Isso até o meio do mês, enquanto um tostão lhe restava. Depois, só bebida e um corpo macio para bater e se encostar. 

Antes de sua mulher, seu chefe se encheu. João recebeu apenas um cheque nominal e lhe pediram as chaves da garagem de volta. No boteco, levou uma surra e beijou o asfalto. Queriam a sua morte, mas seu credor gostou da idéia e aceitou Malú. Arrastado por toda a viela foi jogado à porta de casa e chamou por sua mulher. Nua, de bruços no sofá, Malú não pode compreender aquilo e enquanto seu algoz se vestia. Ela decidiu que nada mais existia.  

No término do primeiro quadrante, do terceiro ano, disseram que a moça enlouqueceu. João sonhou que estava na “hidro” com uma de suas vagabundas. Só teve tempo de arregalar os olhos, antes que seu cérebro derretesse. Ele gritou. Gritou bastante. Encharcado em água e sangue ferventes. Chegou sem vida ao hospital. E Malú apenas sorriu.

Tiraram-lhe os filhos. E ela sorriu. Passaram lhe as algemas, depois as correntes. Ela sorriu. No tribunal, também sorriu. Diante dos polícias, do delegado, do juiz e do júri, apenas sorriu.  quando voltou a ver os filhos, chorou. Abraçados aos rebentos, deu um beijo em cada e despediu-se: “Vocês estão livres”.

Aquelas foram suas últimas palavras, seu último choro, seu último sorriso. Malú morreu. Envolta num velho trapo de pano, ela morreu. Não contava os dias, nem olhava as horas. Comia, bebia, dormia, acordava e apenas a ferrugem daquela viga de ferro na fresta do muro lhe acompanhava.

Os dias de chuva eram bem piores. Presos na cela ou amotinados  no pátio, todos assistiam aquele farrapo humano, descendo até o chão, respirando a terra, procurando, talvez o horizonte ou o mar, sem no entanto, desprender seu olhar da viga de ferro. Resistiu a uma, duas, três doenças, com alguma gravidade, disseram. Contudo seu corpo, que resistira a tanta coisa, não concordava com a idéia de morte e a sorte lhe trouxe Felipe. A compaixão transformou-se em amor e Malú respirou.

O jovem médico conseguiu a remoção da moça para uma clínica particular: terapia, medicamentos e respeito. A moça já não enxergava mais a viga, embora, às vezes, ainda a procurasse. Felipe encontrou os filhos. Um a um. Reuniu a todos em uma grande casa na cidade de Pendotiba, onde meses depois puderam receber de volta a mãe.

Custou cerca de 5 anos para que Malú  pudesse entrar definitivamente na vida de Felipe. Foram necessários  recursos, atenuantes e pareceres médicos até que a condicional lhe fosse ofertada. Pela primeira vez, a moça teve o que sempre sonhou quando se apaixonou por João.

O médico mostrou-se reticente por mais um ano e ao final do verão de 1987, resolveram viajar. Passaram 20 dias longe de tudo e de todos. Felipe voltou convencido de que a mulher estava totalmente recuperada. Numa noite de verão, exausto pelo trabalho, Felipe beijou sua mulher. Em seguida, entrou no chuveiro e tomou um banho. Colocou champagne no gelo e perfumes no pieto, como Malú gostava. O médico era delicado em cada toque. A moça Malú gemia. Seu corpo contorcia-se de prazer. Por um instante, seu olhar apaixonado perdeu-se ao caminhar de encontro ao de seu amante. No canto do teto havia uma viga de ferro, enquanto a chaleira chiava à beira do fogão.


Por; Henrique Bicardi

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A VOLTA DE MALÚ

Um frio cortante lhe impedia de abrir os olhos. As lentes dos óculos, embaçadas pelas lágrimas que pareciam intermitentes, despojaram-se, aliviadas, sobre seus longos cabelos ruivos. Malú tentou respirar fundo, mas o ar rarefeito lhe deu alguma tontura e a menina jogou-se ao longo da montanha.

Fincava a cana no gelo com a intensidade de outras Eras. Sentiu-se pulsar. A idéia de jogar-se, a entrega, aquela sensação de liberdade lhe devolvia o sentido da vida, num momento tão impar, em que qualquer descuido poderia significar a morte. A moça pensou nisso tudo durante a descida, por cada árvore que parecia vir em sua direção. 

Tentou, sem sucesso, esparramar-se na neve por três vezes. Queria, mas não queria. Era uma vontade inexplicável de sentir cada osso de seu corpo se partindo ao tempo em que o medo da morte lhe devolvia o equilíbrio. Quase deu-se por vencida.

Ao longe, avistou um rapaz que descia suavemente a montanha, muito lentamente, quase parando. Triste, solitário, procurando, talvez, por ela – pensou Malú. Precipitou-se ao seu encontro. O choque arremessou o rapaz a alguns metros de distancia.  


Sem tempo a perder, a moça, então, subiu em suas costelas, doloridas pelo tombo. Voraz, arrancou dele, os óculos, a mascara de algodão que protegia seu  rosto e lhe torpedeou com um molhado e demorado beijo. A moça lhe prendia os braços e sem poder respirar, o rapaz encontrava-se quase desfalecido.  Algumas pessoas, porém, presenciaram o acidente e vieram salvar o rapaz. A muito custo, puxaram Malú para um outro ponto da montanha, enquanto alguns paramédicos prestavam os primeiros socorros ao moço. 

Houve tempo para que Malú recuperasse o fôlego. A menina aguardou colocarem o rapaz na maca e com os lábios sedentos voltou a atacá-lo. Contida novamente, só então percebeu, ao distanciar-se: Aquele não era João.

 Malú pensou na ironia de toda aquela maciez branca que lhe envolvia o corpo e no céu azul que, a sua frente, lhe fazia sentir as vistas. Foi levada ao seu quarto e por lá permaneceu o resto do dia, entre um gole de vinho e várias lembranças. Na manhã seguinte pegou o primeiro vôo com destino a São Paulo.

Encontrou a cidade barulhenta e nublada, como de sempre. Uma chuva fina lhe trouxe um leve sorriso. O porteiro não lhe estranhou e ofereceu-se para carregar sua mala até o apartamento 803. O moça entrou, despiu-se e afundou no colchão macio.

Por volta das 19 horas, João entrou em seu apartamento e sorriu. Foi até o banheiro e barbeou-se. Tomou um longo banho. Enxugou-se, caminhou até sua cama e encaixou seu corpo no de Malú. A moça sentiu sua presença e virou a cabeça com um olhar interrogativo. O rapaz colocou as mãos em seus cabelos e os acariciou. Malú ajeitou mais ainda o seu corpo no de João. A moça estava cansada e desfaleceu, amparada pelas mãos mágicas de João que já naquele momento lhe acariciava os seios.

No dia seguinte João deu uma última olhada para o seu apartamento. Sabia que, com Malú de volta, a noite, ao retornar do trabalho, tudo estaria diferente...como sempre esteve.

Por ; Henrique Biscardi

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

THAIS E O VETUSTO

Atravessou o mar esperando encontrar algum refúgio, algo que lhe encantasse. Porém, logo percebeu que a fuga não havia sido uma boa escolha. Procurou e não encontrou razão para estar ali. Em seus olhos, sua alma em frangalhos. Pelo horizonte escorria, água, água e água. Estava difícil enxergar a terra. Ela perecia, cada vez mais, distante...menos firme. 

Quanto mais fustigava seus desejos, crescente era a sua febre. Talvez – pensou - não fosse uma lebre indefesa, presa num covil, a espera de seu algoz.  Talvez nem fosse grande a sua espera. Talvez. A incerteza, porém também a consumia. Mais do que a espera.

Sobre a espera, ela lembrou: durou uma semana inteira!  Telefonou, mandou e-mail, passou mensagem. - Estou ocupado, depois te ligo – Aquilo não era resposta! – Indignou-se. Ela queria mais. Queria entrega. Desejava que ele a desejasse tanto quanto ela o desejava. Seu cheiro, seu corpo, seu querer estar junto.

Foi quando algumas palavras laminaram o seu peito. Ele dizia querer estar junto. Dizia que pensava nela o dia inteiro e aquilo era tão especial, algo tão inédito em sua vida. Thais sorriu com desdenho. Achou até charme no jeito com que ele dizia aquelas mentiras doce.  Entretanto, sem razão, em um dia qualquer, ela acreditou.

Aceitou seus gracejos, confiou em seu olhar. Atravessou metade da cidade num engarrafamento para estar com ele um par de horas. Ficaram a noite inteira. Conversando e sorrindo. Apesar do desejo, não se enroscaram em camas ou lençóis. Amaram-se. Sim, amaram-se. Amaram-se na cumplicidade de suas histórias, de suas dores, em suas memórias.  Seus corpos e bocas desataram-se por vários momentos, irrompendo sobre um momento ou outro de desatino, de tristeza, de descompasso. Despediram-se algumas vezes, mas a cada distanciamento, uma outra força os reaproximava.  E o dia, amanheceu. A semana passou. Rogério, sumiu.


Thais pensou que o silêncio jamais poderia dizer mais do que mil palavras e isso a consumia. A menina, então, já não saía. A música era sua única companhia e fonte de energia. Percorreu desertos que não conhecia em sua alma, buscou abrigo onde não existia, desbravou mares cujas correntes lhe jogaram de um lado ao outro de sua solidão.

Atravessou o mar esperando encontrar algum refúgio, algo que lhe encantasse. Depois de duas semanas, voltou ao Porto. Pegou o celular e ligou?

- Thais! Por onde andou, meu amor?  Tentei deixar mensagem no seu celular, mas não consegui.

- Rogério, só liguei para dizer que eu te perdôo. Eu te perdôo, Rogério.

Thais interrompeu a ligação e jogou o celular no mar. Aquilo, para ela, havia ficado muito vetusto. 

Por: Henrique Biscardi

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

INTERVALO

Eu não quero ter essa conversa tola.
Você não percebe?
Esse controle remoto que você chama de poder.
É....sei lá...uma defesa minha.
Você sabe...homem é mais fechado, não gostamos mesmo muito de falar, principalmente de nossos sentimentos.
O que eu posso fazer? Nós somos assim.
Somos mais fechados. É nossa natureza!
Fazer o quê?

Hã?
Mas é claro que eu gosto de você, amor.
Claro que gosto!
Olha, deixa eu te contar uma coisa.  
Sabia que nem de futebol eu gosto?
Não gosto, não. É verdade.
Eu vejo porque não há mais nada de interessante para se ver na TV, estou a toa, sem fazer nada. Mas eu não deixo de fazer nada para ver futebol. É ruim, hein. Se eu tiver que sair, eu saio. Se tiver que fazer outra coisa, eu faço. 
O que por exemplo?
Sei lá, Thais. Cada idéia. Agora, assim, na lata, eu não me lembro de nada, mas é lógico que eu já deixei de ver o jogo para fazer alguma parada. Está louca!

Quer ver só? Responda-me uma coisa...Que dia da semana eu jogo futebol com os amigos,hein!!!
Hein! Hein!!!
Nenhum,Viu? Nenhum. Se eu ligasse tanto assim para futebol, era natural que eu tivesse alguma pelada durante a semana para jogar com um grupo de amigos. Mas, eu não tenho. Saio do trabalho e venho para casa para ficar aqui, com você. 

E outra coisa.Você diz que eu não quero conversar, mas isso também não é verdade.
Você é que só quer conversar na hora do jogo
Podia ser na novela, mas não!!!
Tem que ser na hora do jogo
Podia ser na hora do filme, mas não!!!
Tem que ser na hora do jogo
Nem durante o programa da Hebe, você quer conversar
Não, não. Só na hora do jogo.

Hei , hei , espera aí,
Pra que essa mala?
Como assim, Thais?
Espera, olha...está passando futebol e  Eu estou aqui...com você. Viu? Senta aqui, vamos conversar.
Não? Você quer ir?
Mas, por que?
Saco cheio, saco cheio, Isso lá é jeito de falar com o seu marido,Thais?
Futuro ex?
Como assim. Peraí , meu amor. Não faz assim, vai
Venha cá, venha...

Está bem, está bem, já te soltei. Quer ir, vai. Mas, vai para onde?
Não me interessa? Claro que me interessa. Eu sou seu marido.
Que negócio é esse?  Para com isso
O seu lar é aqui. Pára com isso, vai . Vem cá, me dê um abraço aqui, vai
Isso!!! Eu te amo, sabia?

Não, não chora
Venha cá,
Isso...me abraça.
O que foi isso, hein!!!
Você sabe que eu te amo...
Amo sim...verdade!!!

Não Thais! Calma, calma
Senta aqui, vamos conversar
Calma, calma, eu não esotu te enrolando, a gente só está conversando!
Você não queria conversar?
Faz o seguinte, então, ó
Fica essa noite na casa da sua mãe
Converse com ela, pensa bem, se acalme
Amanhã, a gente senta e conversa
Que tal? O que você acha?
Gostou da idéia, né?
Se eu te levo?
Claro que eu te levo...
Senta aqui, respira, se acalma
Deixa só dar o intervalo aqui,  que eu já te levo.




Por: Henrique Biscardi

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

THAIS E A CAMISA AUTOGRAFADA DO WASHINGTON

Abriu os olhos e desejou enrolar-se ainda mais naqueles lençóis. O sol entrava num curto espaço entre o batente das janelas e a cortina. Era possível ver que ele brilhava, como os olhos de Thais que, naquele momento, desejava um delicioso café da manhã e um mimo de seu novo namorado. Pensou que seria bom um beijo de "bom dia" na testa e na bandeja, suco, iogurte, granolas, frutas e cereais.

Marcelo estava em frente ao espelho. Tirou a camisa e com a calça de pijamas parecendo uma roupa ninja ameaçou alguns passou de Tai chi. No início, Thais até achou alguma graça. O rapaz, porém, empolgou-se e começou a ver músculos onde os mesmos não existiam. Passou as mãos sobre os cabelos e tentou inflar o peitoral. A pior parte foi fazer simulações, em frente ao espelho, de sua performance na noite anterior. Isso sim, deixou Thais perplexa e indignada:

- Mais o que é isso?

- Isso, o que?

- Essa coisa ridícula.

- Ridícula hoje, né? Ontem à noite você bem que gostou.

Thais sabia dos riscos de pegar qualquer um, em qualquer lugar. Suas amigas também já a haviam alertado – Tai, hoje 90 % dos homens são babacas. Pouco mais de 9 % são legais, mas já estão casados ou comprometidos. Nos sobra então, menos de 1% amiga!! isso é quase nada!!! Cuidado, amiga! E nada de levar homem para casa, hein !

Esse último conselho a menina ouviu. Foi para a casa do rapaz. A questão agora era, como sair de lá:

- Eu estou falando disso aqui, dentro de seu armário. Que porra  é essa, Marcelo?

- É a camisa do Washington, meu amor. Eu já havia lhe falado sobre ela.

- Quem é Washington?

- Washington, meu anjo. Aquele atacante do Fluminense. Aquele, lembra-se? O cara teve um problemão no coração, ficou um tempo parado e depois, deu a volta por cima, foi campeão...lembra-se?

 - Não.

- Washington, amor. Aquele que jogava no Fluminense!

- Porra! Marcelo, tu não é rubro-negro? Que camisa é essa do Fluminense dentro de seu armário?
- Qual o problema?

- Qual o problema? qual o problema?

Thais pegou a camisa e cheirou

- Porra!!! Está fedendo para cacete essa porra! Bem que eu estava sentindo esse cheiro desde ontem.

- Claro! É a camisa do jogo! Ele me deu de recordação. Ele é meu parceiro. Tirou do próprio corpo e me deu .

- E vc acha isso legal, Marcelo. Que porra de  homem você é que guarda a camisa de outro marmanjo no armário sem lavar, Marcelo. Você quer o que? Quer ficar sentindo o cheirinho dele?  E essa porra que você estava fazendo em frente ao espelho, Marcelo? Que coisa ridícula era aquela?  Você é gay, Marcelo? Você é gay? 

Thais sabia que gay Marcelo não era,  mas aquele malabarismo em frente ao armário extinguiu a chance daquela relação ir adiante. Para Thais, Marcelo não era gay, era ridículo e isso era muito pior. Se tem uma coisa que Thais jamais suportou foi homem ridículo.

O clima entre os dois ficou pesado. Marcelo olhava fixamente para o teto, tentando entender o que se passava na cabeça de Thais. A moça vestiu-se rapidamente, pegou a mochila e disse adeus.  No hall de entrada do prédio, Thais parou e refletiu:

- Putz! A camisa do Washington...autografada! perdi. 


Por: Henrique Biscardi

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

THAIS E ADALBERTO

Levantou-se e foi até a geladeira. Ficou parada ali, diante do nada, estática. Pegou uma fruta qualquer e dirigiu-se ao sofá, onde suas roupas estavam espalhadas. Sentou-se com as pernas cruzadas e revirou as unhas de um dos pés. Passou as mãos sobre os cabelos e sentiu-se inquieta. Levantou-se.  

Caminhou de uma ponta a outra da sala, mordendo a maça e os lábios inferiores. Foi até as janelas e as abriu. Sentiu um vento arrepiar-lhe o corpo.  Thais Fechou os olhos e deixou suas mãos lhe abraçarem. Partindo do quadril, sentiu a ponta de seus dedos em cada parte de seu corpo.  Balançou a cabeça de um lado para o outro. Suas mãos alcançaram o bico de seus seios e os contorceu, saltando um grito de alívio e prazer. Distante de qualquer coisa que lhe fizesse sentido, entregou-se ao fogo que aquecia a sua alma, deixando que a chama lhe consumisse até o último suspiro. 

Quando seus olhos se abriram, pode ver, pela fresta da porta do quarto, que Adalberto permanecia alienado de seus desejos. Seu corpo ainda tremia e foi difícil sair daquela posição fetal que tanto lhe agradava. Seu rosto, ainda ruborizado, e os olhos, esbugalhados, buscavam alguma compreensão pelo acontecido. Olhou a lua que lhe sorria, debochada, com se algum mérito tivesse naquilo. Não tinha.

A culpa era de Adalberto – pensou –  Tão bonzinho. Adalberto não existe, porra! Não existe!

Pegou o telefone. No outro lado da linha,  Luiza.

- Vou terminar com ele
- Como assim, está louca? Você acaba de ficar noiva.
- Eu sei , Lú. Mas é foda. O cara é perfeito. Ele não existe, cara.
- Calma, Thais. Calma. Respira, respira. Onde você está?
- Na casa dele, porra!
- E cadê ele?
- Dormindo, Coitado. Nem me viu gozar.
- Como assim?
- Nada, nada. Eu vou embora, vou deixá-lo.
- Calma, Thais, porra! Você vai enlouquecer o cara. Não faz isso.
- Eu preciso.
-Porra!!!  Tá maluca? Você me disse ontem que o amava! Disse que ele era um sonho. Cadê o cara educado, gentil, sincero que tanto você curtia, hein? Ele te ama porra!  o sexo entre vocês não é  maravilhoso? Que porra é essa de terminar agora, Thais?
- Eu sei Lú, mas há algo errado nele. Tem que haver? Homem assim existe? Diz para mim, quantos homens iguais ao Adalberto você conhece? Porra! Há algo de podre no reino da Dinamarca, entende? Alguma coisa está errada, cacete. Ele está escondendo alguma coisa. Ele é bom demais para ser verdade!
- Hum. Sei lá. Olhando por esse lado...Ah! desencana, amiga. Acho que você está é com medo de ser feliz.
- Porra nenhuma. Tem alguma coisa errada. Ele está me enganando, está me escondendo alguma coisa. Vou terminar. Pronto. Vou terminar. Acabou.

A moça aproximou-se do rapaz que, aos poucos, foi despertando. Olhou aqueles olhos grandes e castanhos e não a reconheceu. Estanhou a cara séria, fechada. A testa estava franzina e ele pressentiu que a moça tinha algo sério a lhe dizer. Colocou as mãos delicadamente no rosto de Thais e quis saber se algo havia lhe acontecido:

- Não, Adalberto. Ninguém ligou, eu não saí de casa e nem lembrei-me de nada que tenha acontecido e não quis lhe contar antes  para não estragar a nossa noite. O problema é que você é muito bonzinho, cara.  Eu preciso de um homem que me sacuda, que me engane, que me sacaneie, que me deixe insegura. Você está sempre tão preocupado comigo, sempre tão atencioso... deixa eu me ferrar um pouco na vida também. Eu preciso disso. Você me protege demais e isso me sufoca. Eu hoje me dei prazer e foi maravilhoso. Lembra outro dia que você me pegou me tocando?  Eu esperava que você fosse curtir, sentar ali e me ver me dando prazer e não rolou. Você foi embora e depois ficou cheio de grilos me perguntando se você não me dava prazer suficiente. Claro que dá. Você me dá muita coisa e não apenas prazer. Porém, Adalberto, minha vida, meu prazer , meu tudo não pode ser só você e você não me tem dado espaço para mim! 

Adalberto achou que talvez estivesse dormindo. ficou ali, parado, com cara de dois de paus. Nem quando Thais saiu pela porta, o rapaz se deu por convencido. Fechou os olhos e pensou em voltar a dormir.  Quando suas mãos acharam os lençõis vazios ao seu lado, ele finalmente despertou. Sentou-se à cama, colocou o rosto entre as mãos e se perguntou pela razão daquilo tudo.

Decidiu que a moça era doida e não merecia o seu lamento. Jurou tirar Thais de seu pensamento e achou mesmo que jamais veria Thais outra vez em sua vida. Talvez ele tivesse razão. Talvez. 


Por Henrique Biscardi

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A MÃO PELO CORRIMÃO DE THAIS


Talvez fosse o vento que lhe incomodasse. Talvez. Pegou a garrafa de vinho e desistiu. Pensou em...“onde estaria o abridor?”. Desistiu.  Também não queria guardar a garrafa e a deixou ali, ao lado do CD, abandonado na ponta da estante onde se apoiou. Apoiou-se para chorar, mas vontade já não tinha. Corria a mão pelo corrimão -  mão pelo corrimão - achou graça. Achou graça e chorou.

Foi naquele corrimão recém pintado que rolou o primeiro beijo. Ele queria subir, ela travou. Segurou forte em seu tórax. Alexandre a pegou pela cintura. Mãos na nuca da moça. Na boca, um sorriso para o qual Thais ainda não tinha um antídoto. Esmoreceu em seus braços.

Carregada foi pela escada acima. Sentiu-se repousar em nuvens de algodão enquanto seu corpo se despia. Os olhos cerrados, coração leve. Levitou. Agarrou os lençóis com extrema força. Urrou.

Quando recobrou os sentidos, ele estava ali. Mas Thais leu de outra forma seu sorriso. O rapaz estava feliz. Feliz por fazê-la feliz. Ela lhe fez indagações sobre as quais ele não compreendia. Quis saber sobre os motivos, como se houvesse algo além da paixão que o consumia -  Desejo? Sim, desejo. Mas que mal há nisso? Sou desejo, sou tua pele, Sou todo o teu corpo, me vejo em teu olhar!. Ela não compreendia – Quem é que você pensa enganar? Você não me ama, apenas me deseja. Como assim -  insistia - Eu te amo!  

Aquele olhar simples e direto não lhe convencia. Enrolou-se em lençois-armaduras e entrou asperamente em sua suíte. Saiu vestida e transformada. Passou por ele como se nada fosse. Alexandre ficou pensativo por alguns minutos. Pensou que talvez ela voltasse e Thais voltou. Voltou indignada por qualquer motivo alheio. Disse-lhe que queria arrumar a cama. Gostava da casa em ordem, antes de sair e de saída já estava.

O rapaz se foi. Andou quilômetros pelas calçadas vizinhas, sem qualquer direção. Entrou num bar, sentou-se num banco, colado ao balcão. Um atendente lhe interpelou. Olhou para aquele homem de avental branco e para o ambiente a sua volta. Levantou-se e se foi.

As primeiras semanas foram tristeza, incredulidade e saudade. Pensava naqueles olhos grandes e amendoados. Pensava naquela voz macia, nos braços longos que se alongavam em seu corpo. Na quentura dos lábios dela e no gosto da pele. Pensou em ligar. Pensou em ir lá. Pensou. Passou.

Sim, passou. O tempo passou e ele já não pensava. Não pensava, muito. Volta e meia, seu coração batia descompensado. Sua mente enchia-se de lembranças e lágrimas. Olhava o celular em busca de uma ligação perdida, uma mensagem. Seu coração transbordava carinho, amor e saudade. Sim. Ele ainda chorava por ela.

Suas lágrimas, no entanto, secaram. As lembranças daqueles olhos grandes, amendoados e indiferentes lhe assombravam. Não compreendia como alguém pode que lhe despertar tantos sentimentos bons e ao mesmo tempo lhe causar tanta dor.

Assim era o amor, pensou. O amor não correspondido. Na última quarta-feira, ao olhar a chuva marcar pingos grossos em suas janelas, Alexandre conseguiu enxergar o rosto de Thais.  Há alguns quilômetros de distância, sentada no último degrau da escada, cabeça apoiada ao corrimão, olhos grandes e  amendoados curtiam a segurança que a solidão lhe proporcionava. Passou a  mão pelo corrimão - mão pelo corrimão - e pensou nas mãos de Alexandre, passeando pelos seus quadris.

Por: Henrique Biscardi